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Nuno, o pai da Rita falava pausadamente, com um tom de voz baixo. Tão diferentes das outra vezes que estive com ele. O homem confiante, assertivo e muito seguro de si e das suas convicções já não estava presente.

Ela não só não quer saber da minha opinião para nada… simplesmente não quer saber de mim… Quase nem me olha nos olhos… é bom dia e boa noite e pouco mais.

Com a entrada na adolescência da filha o Nuno acabou por se confrontar com uma realidade bem dura. Ele não tinha uma verdadeira relação com a filha. Como muitos pais e muitas mães nesta situação, apercebeu-se que se tinha escondido atrás de ideias sobre a parentalidade baseadas em gestão de comportamentos, castigar quando se porta mal e premiar quando se porta bem. E até agora tinha funcionado. Perfeitamente. A Rita não tinha dado assim tanto trabalho. Comparado com o irmão mais novo era uma maravilha. A Rita mudava rapidamente de comportamento quando era castigada. muitas vezes bastava uma ameaça, e escolhia comportamentos diferentes quando era premiada, Como tinha acontecido por exemplo com os estudos e as notas no ano letivo passado. Até agora. Com 15 anos e a entrada para o 10º ano tudo mudou.

O Nuno alegava que a culpa era da “adolescência”, esse período “tão difícil”. Mas sentia-se pela primeira vez na sua vida adulta totalmente impotente.

Não havia prémio que servisse de estímulo, nem castigo que causasse medo suficiente para ela fazer escolhas diferentes.

E agora?” dizia-me o Nuno com muita tristeza.

Agora, Nuno, podes começar de novo, criando uma nova relação com a tua filha. Uma relação baseada no igual valor, respeito pela integridade, autenticidade e responsabilidade pessoal. E tens de ser tu a assumir 100 % de responsabilidade em primeiro lugar.

O Nuno estava decidido. Fez tudo ao seu alcance para mudar a relação que tinha com a filha. Começou por estabelecer intenções claras, fez um profundo auto questionamento. Refletiu sobre a forma como tinha sido educado e a influencia que essa educação tinha tido na forma de ele exercer a sua parentalidade… e a forma como isto tudo tinha danificado a relação com a filha. Encarou a realidade de que a culpa desta situação não era nada da “adolescência”, percebeu que estavam onde estavam por falta de uma forte relação. Adotou uma atitude de profunda curiosidade e começou a ver a Rita na sua essência. Sem ideias preconcebidas sobre o que é a adolescência, trocando-as antes por uma crença de que este período da vida é de incrível potencial.

E sem os filtros que ditavam o que ele gostava de ver, ele conseguiu reconhecer a Rita como ela queria ser.

Lembrei-me desta história hoje pois faz um ano desde que o Nuno decidiu transformar a sua forma de exercer a parentalidade… faz um ano desde que ele começou a viver a parentalidade. Quando observo a relação que tem com a filha hoje faço o sempre com um sorriso e com muita gratidão por poder ter assistido a este processo, esta transformação. Por poder ver que um homem como o Nuno, tão convencido sobre a forma certa de agir, ter a coragem de questionar as suas crenças e experimentar algo diferente.

Lembra-te, o teu filho aprende com quem tu és. Ele vê muito além das máscaras da parentalidade. Quanto mais velho ele fica, menos se vai deixar manipular. Em vez de pensares no que podes fazer em relação ao seu comportamento decide quem queres ser na relação com ele.

No próximo domingo sairá um episódio do Podcast IVM que fala precisamente deste tema, pela voz de convidados muito especiais, principalmente no que diz respeito à adolescência! Fica atenta/o.

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