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Durante a 2ª Guerra Mundial, em Estocolmo, na Suécia, juntou-se um grupo de psicólogos. Muitos estavam lá como refugiados, vindos da Áustria, da Holanda, da Bélgica, da Dinamarca e Noruega. Fizeram seminários informais onde a mesma pergunta estava sempre presente: Como é que rapazes alemães perfeitamente normais, muitas vezes com uma boa educação, se poderiam comportar tão mal durante a guerra? E como era possível justificarem os seus atos dizendo que estavam apenas a ”obedecer às ordens”?

Os psicólogos observavam que muitos destes jovens alemães viram a obediência às ordens como óbvia. A única explicação que encontravam era que, enquanto crianças, tinham sido alvo de uma educação autoritária, ensinados que a obediência era fundamental, e que enquanto obedeciam não teriam de se sentir culpados de nada. Enquanto obedeciam estava tudo bem.

Na educação autoritária os principais objetivos são a obediência e a conformidade, os métodos e as estratégias são todos os que provocam sentimentos de culpa e vergonha e a sensação de ter menos valor do que os outros. As crianças são vistas como seres com menos valor que se têm de esforçar para merecerem respeito e amor.

Quando a 2ª Guerra Mundial acabou, os psicólogos que se encontravam em Estocolmo fizeram uma última reunião. Prometeram que, cada um para o seu lado, iriam trabalhar contra todo o tipo de educação autoritária. Mas não tiveram muito sucesso.

Como bem sabemos, ainda hoje, a maioria das técnicas recomendadas encaixam no modelo autoritário, como por exemplo: castigos, isolamento (time out), palmadas e ameaças. Tanto nas escolas como nas famílias. E também os prémios e as recompensas que às vezes aparecem como alternativas ”positivas”, são igualmente técnicas utilizadas para, em primeiro lugar, promover a obediência e a conformidade.

Em 1946, um ano depois do fim da guerra, uma das psicólogas suecas presentes nas reuniões em Estocolmo lançou, junto com o seu marido que era sociólogo, um livro chamado ”Não existem crianças más”. No último capítulo, os autores falam de educação como um projeto fundamental para o desenvolvimento e a sustentabilidade da democracia. Os autores, com as suas memórias frescas da guerra, deixaram um apelo aos pais e educadores dizendo que é fundamental assegurar que a educação que praticamos permita desenvolver pessoas que saibam viver verdadeiramente os valores da democracia. Incentivaram os leitores a educar as crianças de forma a que fiquem ”imunes a todo o tipo de crenças autoritárias”. Uma educação que permite um pensamento crítico, livre e independente, onde o respeito pelos direitos de todas as pessoas é garantido.

Os autores falam numa ”educação livre” e esclarecem que uma educação livre não quer dizer que a criança tem o direito de fazer exatamente o que quer, mas que tem o direito de reagir e mostrar as suas emoções! Proclamam que não é suficiente confiar no instinto e no ”bom senso”, que é necessário ter conhecimento. Mas não pode ser um conhecimento qualquer, tem de ser um conhecimento que permite aos pais realmente entenderem o comportamento dos seus filhos. Um conhecimento que lhes permite tomarem opções informadas e conscientes. Não podem ser manuais sobre como modificar comportamentos. Tem de ser conhecimento que tenha em conta os direitos das crianças, e com uma intenção de educar a criança para ela se desenvolver num adulto que possa, de uma forma segura e independente, trabalhar para, e expressar, valores democráticos.

A verdade é que estas pessoas não foram as primeiras a criticar a educação autoritária e a preocupar-se com os valores da democracia. Já desde o início do século XX se falava da educação livre e personalidades da comunidade científica vieram a comprovar a importância de uma relação próxima, segura e carinhosa entre pais e filhos e os perigos de métodos autoritários como castigos ou palmadas e todo o tipo de estratégias que implicam dar e retirar amor como forma de gerir comportamentos (o que inclui prémios, elogios e recompensas).

Isto tudo para dizer o quê? Para dizer que a minha área de trabalho, que chamo Parentalidade Consciente, não é nada de novo. Não é uma moda que está de passagem. Parentalidade Consciente é algo que vem a amadurecer já há muitos anos. É algo que não está a ser mais praticado porque existem forças na nossa sociedade obcecadas pelo controlo, que não querem abdicar do seu poder. Forças que vivem a vida a partir do medo e não do amor.

Uma das coisas mais importantes na Parentalidade Consciente, como eu a vejo, é a prática do igual valor. Igual valor quer simplesmente dizer que, tu e eu, os meus filhos e os teus, temos exatamente o mesmo valor. As nossas emoções, sentimentos, necessidades, desejos e opiniões têm exatamente o mesmo valor. Temos todos o direito de exprimir o que sentimos, o que achamos, e o que desejamos, o que não tem nada a ver, como já referido, com ter direito a comportar-se de qualquer maneira.

Os autores e os cientistas aqui referidos estavam a olhar para as causas e os efeitos entre as formas de exercer parentalidade, o estado da sociedade e a guerra, e viam ligações bem claras. Todas estas pessoas estavam a trabalhar para fazer algo diferente, estavam a dizer que a necessidade da prática do ”igual valor” era eminente e fulcral para termos um mundo em paz.

Infelizmente continuamos sem saber praticar o igual valor, estamos mais centrados em ter razão do que em ser respeitadores e felizes. A educação autoritária, que ainda reina em Portugal, ensina que há cidadãos que têm menos valor do que outros. É algo que tem sido constante na nossa história… os escravos, as mulheres, as pessoas de etnias diferentes e as crianças. Hoje em dia, felizmente, já são bastantes as pessoas que lutam contra a discriminação das mulheres, as que debatem a xenofobia, mas ainda há poucas campanhas que defendam os direitos das crianças. Parece que no meio de tanta miséria, os nossos cidadãos mais indefesos, continuam a ser considerados cidadãos de segunda. Estamos apenas focados em gerir os seus comportamentos, em vez de questionar o porquê da criança fazer birras, o porquê dela não estar suficientemente atenta na sala de aula, o porquê dela não querer adormecer sozinha. Procuramos métodos para mudar os comportamentos, para que encaixarem dentro das normas. Em vez de pormos as nossas próprias atitudes em causa, criticamos as atitudes das crianças. Lutamos para a criança ser obediente e conforme. E esquecemo-nos de procurar entender, e de ver a criança que temos à nossa frente, na sua essência. Esquecemo-nos de simplesmente de pedir a sua colaboração e não permitimos que exprima o que está dentro dela, não permitimos que assuma responsabilidade pessoal, não a ajudamos a encontrar formas saudáveis e ecológicas de comunicar. Abafamos tudo com castigos, palmadas, críticas, elogios, prémios e recompensas. E cá estamos nós em adultos… com dificuldades em falar sobre o que sentimos, com medo dos julgamentos dos outros, a sentirmo-nos insuficientes, com depressões e com auto-estimas péssimas… e nada fazemos para proporcionar um futuro emocional diferente para os nossos filhos.

E esquecemo-nos também que não estamos a educar crianças, estamos a educar futuros adultos. Serão os adultos que um dia tomarão conta do nosso mundo (e de nós, quando estivermos em final de vida).

Hoje, agora, este momento, é uma boa altura para assumirmos o compromisso de fazer algo diferente. Eu acho que somos capazes. E tu?

Artigo publicado: http://capazes.pt/cronicas/o-preco-da-obediencia-por-mikaela-oven/

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