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Muitas pessoas, pedagogos, pais, profissionais da educação… falam sobre consequências. ”O comportamento tem que ter consequências!” ”Ele tem que saber/sentir as consequências!”

Em geral, estou de acordo. Mas quando falamos em consequências acredito ser importante saber que tipo de consequências pode haver, e se fazem sentido ou não (e se têm o ”efeito” que se deseja).

No fundo existem três tipos de consequências.

  1. Consequências naturais. 
  2. Consequências lógicas.
  3. Castigos

Consequências Naturais
Consequências naturais são as consequências que acontecem sem a intervenção de ninguém.

Exemplo: O Miguel quer calcar na poça de água, mas está sem galochas. 
Consequência natural: O Miguel molha os sapatos e tem de andar com os pés molhados.

Exemplo: A Sara não se quer levantar de manhã para ir a escola.
Consequência natural: A Sara vai chegar atrasada.

Exemplo: o João não quer comer à hora do almoço.
Consequência natural: Vai sentir fome antes do lanche.

Para as consequências naturais se poderem transformar em momentos de aprendizagem (muito valiosos), temos de evitar salvar a criança. E também temos de evitar emitir comentários como ”Bem te disse que estava frio”, ”Eu avisei que te ias molhar” etc. Em vez disso podemos servir de suporte empático e demonstrar a nossa compaixão, sem resolver a situação e sem criticar.

Ao Miguel podemos dizer: ”Ó pá, ficaste mesmo molhado. Qual a sensação dos pés lá dentro?”

À Sara podemos dizer: ”Chegaste atrasada, foi? Mas conseguiste apanhar o segundo autocarro?”

Ao João podemos dizer: ”A tua barriga até está a protestar. Tanto barulho! Se calhar podes beber um copo de água para ela aguentar até ao lanche?”

Claro que há situações em que nós adultos não podemos deixar as consequências naturais acontecerem. Por exemplo:

  • quando as consequências poderiam ser muito graves (criança corre atrás da bola que atravessa a estrada);
  • quando a consequência irá acontecer passado muito tempo (não quer lavar os dentes, quer muitos doces etc).;
  • quando uma terceira parte será afetada (jogar à bola ao lado das janelas do vizinho, partir os brinquedos de um amigo etc.)

Nestes casos provavelmente será melhor desenvolver consequências lógicas.

Consequências Lógicas
Uma consequência lógica acontece quando alguém intervém na situação e decide qual a consequência que vai haver. Utilizamos este tipo de consequências para ajudar a criança a aprender sobre responsabilidade e a desenvolver a mesma. Uma consequência lógica é uma consequência ligada à situação ou ao comportamento de uma forma lógica. Nunca pode ser uma reação de um adulto zangado e frustrado. Não existe para castigar a criança mas para contribuir para o seu desenvolvimento emocional e comportamental.

É muito importante diferenciar consequências lógicas de castigos.

Consequência lógica
Tem ligação lógica ao comportamento/situação
Promove responsabilidade
Deixa a criança fazer escolhas de acordo com as suas experiênciasDeixa a criança ser o dono do problema e da sua solução

Castigo
Não tem ligação lógica com o comportamento/situação
Promove obediência
A criança fica dependente de outra pessoa para saber o certo e o errado
Faz a criança ter medo e muitas vezes negar o que fez

Exemplos:
A Rita parte a janela do vizinho.
Consequência lógica: A Rita tem de falar com o vizinho e procurar uma solução
Castigo: A Rita não pode ver televisão durante duas semanas. 

O Henrique não quer lavar os dentes:
Consequência lógica: O Henrique não vai poder comer doces nenhuns.
Castigo: O Henrique não vai ter história à noite. 

A Eva quer ficar a ver televisão durante mais 20 minutos para ver um programa até ao fim.
Consequência lógica: Não vai ter história ao deitar.
Castigo: Não vai poder ver mais o programa. 

A Ana tem muita dificuldade de se levantar de manhã.
Consequência lógica: A Ana vai ter de se deitar meia hora mais cedo.
Castigo: A Ana não vai poder utilizar o computador.

O Rui e o Tiago brincam com o papel higiénico na casa de banho da escola.
Consequência lógica: O Rui e o Tiago vão ter de arrumar e limpar a casa de banho.
Castigo: O Rui e o Tiago têm de ficar na sala da Diretora durante a tarde.

Quais os problemas com os castigos, talvez perguntes? Se uma única frase chegasse seria:

Não funcionam! Tanto castigos como crítica diminuiem a auto-estima da criança e ela sente que não tem valor para outras pessoas. Facilmente cria tristeza e raiva (que pode ser exprimida ou não) e muitas vezes tem o efeito oposto daquilo que é o nosso objetivo como pais. A nossa ideia aqui é ajudar a criança a desenvolver responsabilidade, mas quando utilizamos castigos a probabilidade de a criança vir a evitar responsabilidade para se proteger é muito alta. Há criança que escolhem mentir, não porque são más ou realmente mentirosas, mas porque estão a proteger-se a si e à sua integridade.

Agora se calhar também te perguntas como podes então utilizar as consequências lógicas? Espera mais alguns dias e podes vir aqui ler outro artigo!

Se quiseres ler mais sobre este tema:
Já escrevi sobre castigos aqui.
E recomendo vivamente este artigo (em inglês).

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