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”És muito permissivo!”, ”Comigo levava já um sermão!”, ”Se o deixares fazer isso, depois vais ver!”, ”Esta gente agora deixa as crianças fazer tudo!”…

Um dos principais desafios para quem quer praticar uma parentalidade consciente, ou uma parentalidade diferente daquilo que a maioria à sua volta pratica, são as críticas de quem tem uma visão diferente – chamemos-lhe mais ”tradicional” ou autoritária. E, às vezes, é difícil conseguir explicar que quem pratica parentalidade consciente não é, de todo, permissiva. É, antes de mais, respeitadora da integridade da criança.

Dois dos valores base desta abordagem da parentalidade são precisamente o respeito pela integridade e também a prática do igual valor, um conceito às vezes não muito bem compreendido.

Quando se acredita muito numa parentalidade em que o foco está exclusivamente naquilo que queremos que a criança faça: que nos obedeça no momento e que nos oiça, sem termos que repetir 300 vezes a mesma coisa, não estamos a praticar igual valor. Da mesma forma, quando quando praticamos uma parentalidade em que o foco está em satisfazer todos os desejos, vontades e permitir todos os comportamentos da criança, também não o estamos a fazer. Na primeira a pessoa demonstra que tem mais valor na relação é o adulto, na segunda passa a mensagem que a criança é que tem mais valor na relação.

É óbvio que a primeira pessoa não pratica o que chamamos parentalidade consciente, mas a segunda também não o está a fazer.

Na prática do igual valor é importante diferenciarmos o desejo da necessidade. Temos o direito de ter desejos, mas nem sempre os vamos poder satisfazer e isso não tem implicações importantes no bem estar geral. No entanto, como pais temos a responsabilidade de preencher as necessidades dos nossos filhos. Em ambos os casos, podemos integrar o igual valor e podemos satisfazer uma necessidade sem satisfazer o desejo.

 

A prática do igual valor implica que as necessidades, os desejos, as emoções, os pensamentos e as opiniões de todas as pessoas têm o mesmo valor. Para o meu filho é tão importante voltar atrás porque se esqueceu do carrinho, como para mim, que me esqueci do telemóvel, por exemplo. Pode não ser possível voltar atrás, mas posso sempre reconhecer o desejo, e lembrar-me que por detrás deste desejo pode estar uma necessidade de segurança. E é a minha responsabilidade ajudar o meu filho preencher essa necessidade. Assim, partido igual valor. Adultos e crianças têm igual direito de expressão dessas necessidades, têm igual direito de falar sobre os seus desejos, de exprimir as suas emoções, os seus pensamentos e as suas opiniões. Não quer dizer que têm o direito de se comportar como querem ou de magoar e desrespeitar as pessoas à sua volta. E mais uma vez, é válido para adultos e crianças.

E é com isto que temos de saber viver tranquilamente. Com o facto dos nossos filhos eventualmente chorarem, ou ficarem tristes com uma decisão nossa que, embora respeite a sua integridade, possa não respeitar o seu desejo. Assim como nem sempre gostamos do que eles escolhem para vestir e, se queremos criar uma boa relação de mútuo respeito, precisamos de estar ok com isso também.

O meu filho do meio descobriu recentemente o McVeggie. Comeu pela primeira vez no McDonalds há uns meses atrás, com 10 anos. Pede sempre um menu grande, com Fanta. Na semana passada aconteceu que fomos ao McDonalds durante a semana, pois por causa da logística familiar era necessário uma solução rápida para o jantar. Uns dias mais tarde, na mesma semana, houve de novo uma complicação na logística familiar e era necessário comprar o jantar fora. O rapaz queria outra vez McDonalds. E eu como mãe, por causa de já ter havido um jantar no McDonalds naquela semana, senti que seria demais. Era contra os meus valores e o que acho saudável. Sabia que o meu filho estava cheio de fome, que tinha o desejo de comer uma certa coisa, mas que a necessidade era alimentar-se. Posso reconhecer o desejo, sem o julgar e sem o preencher, e assegurar que satisfaço a necessidade.

– Isso seria a segunda vez esta semana..

– Sim, e então?!?!

– Ganhaste mesmo o gosto por esse hambúrguer, já não achas picante?

– Não. É bom!

– Hm, eu sei. Até também gosto. No entanto acho melhor guardarmos uma ida ao McDonalds para daqui algum tempo. Sinto que fica demais. Qual a tua segunda opção?

– Oh, mamã….

– (sorriso) Sim, qual a segunda opção?

– Está bem… vou ao Vitaminas.

E lá o rapaz foi ao Vitaminas sem protestos. Não todo contente, mas com a integridade respeitada.

Como adultos numa relação com uma criança encontramo-nos numa relação assimétrica. Isso quer dizer que uma das partes tem mais poder, mais idade, mais educação, mais privilégios. E neste caso, somos nós, os adultos. Podemos usar essa assimetria para exercer o nosso poder, que é o que acontece na parentalidade autoritária, podemos abdicar totalmente do nosso poder, que é o que acontece na parentalidade permissiva, ou podemos assumir responsabilidade pelo poder que temos e utilizá-lo de forma a respeitar sempre a integridade da criança e tratá-la com igual valor.

Para exemplificar:

Parentalidade Autoritária: Sou eu que mando!
Parentalidade Permissiva: Ok, ok… vamos então fazer o que tu queres.
Parentalidade Consciente: Hm, não estou confortável com essa opção. Explica-me melhor o que pensas para podermos chegar a um acordo.

Parentalidade Autoritária: Já para o teu quarto! Isso não se faz!
Parentalidade Permissiva: Deixa lá… não faz mal.
Parentalidade Consciente: Opá, isto não correu assim tão bem. Vamos conversar sobre o que aconteceu para ver como vamos resolver tudo da melhor forma.

Parentalidade Autoritária: Pára já de chorar! Não tens razão nenhuma para chorar!
Parentalidade Permissiva: Toma aqui o chocolate. Não chores. Já está…
Parentalidade Consciente: Estavas cheio de vontade de comer o chocolate não era? Eu percebo, também gosto imenso de chocolate e hoje não vamos comer mais.

Parentalidade Autoritária: Arruma já as tuas coisas!
Parentalidade Permissiva: Pronto, eu arrumo então.
Parentalidade Consciente: Olha, mete-me imensa confusão ter estas coisas todas aqui. Explicas-me qual o teu plano?

Claro que, nem sempre os diálogos correm sem obstáculos. Mas quanto mais habituados somos, nós e os nossos filhos, a ter uma relação onde a principal ferramenta é o diálogo baseado no igual valor e respeito pela integridade, mais natural será, mais respeito, compreensão e colaboração haverá. Dos dois lados.

Além disso, estamos a cultivar capacidades e competências nos nossos filhos que lhes serão imensamente úteis nas suas relações atuais e nas suas relações futuras, pessoais e profissionais. Pois, se for como eu, acredita que é bem melhor saber colaborar conscientemente, do que obedecer. É bem melhor saber dizer um não com consciência tranquila, do que inventar uma mentira. É bem melhor saber dar um feedback assertivo, do que punir o outro pelos seus erros.

Tendo interesse em criar uma relação serena com o nosso filho onde ele possa crescer e desenvolver-se para um adulto respeitador e feliz e onde nós próprios nos sentimos bem e respeitados, há várias coisas que podemos fazer. Uma delas é ler e estudar. Se quiseres aprender mais sobre a prática da parentalidade consciente podes fazê-lo através do meu livro “Educar com MIndfulness” ou do curso “A Linguagem Secreta da Parentalidade“.

Mia

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