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Nestes últimos dias não deve ter passado despercebido de ninguém as notícias sobre assédio sexual, sobre os julgamentos do juiz Neto de Moura e os números de mulheres mortas vítimas de violência doméstica em Portugal desde a passagem de ano. 12 mulheres, em 67 dias. Uma em cada 3 mulheres na Uniäo Europeia com mais de 15 anos já experienciou violência e/ou assédio sexual (por parte de uma parceiro ou homens desconhecido). 

Parece-me que algo está fundamentalmente mal. Embora também haja homens vitimas de violência doméstica e assédio e crime sexual, talvez, no caso dos homens o mais interessante seja focar na violência existente entre eles mesmo. E depois temos ainda as próprias mulheres que também elas de muitas formas contribuem para a cultura de de desigualdade na qual na realidade vivemos. Em alguns países mais é  evidente e grave do que em outros, mas não há pais que se escape. Nem os 6 países que recentemente foram considerados pelo Banco Mundial ser os únicos no mundo onde os direitos legais entre homens e mulheres são iguais (Bélgica, Dinamarca, França, Latvia, Luxemburgo e Suécia). Também nestes países a desigualdade social continua bem presente. Também nestes países continua a a haver mulheres discriminadas, assediadas, violadas e assassinadas, por serem mulheres.

Eu tenho uma convicção muito forte. Acredito profundamente que a única forma que temos de construir uma mudança duradoura é levar muito, muito a sério a forma como educamos as nossas crianças e a forma como exercemos a nossa parentalidade. Existem algumas praticas recorrente que propagam a cultura na qual vivemos. Tenho a certeza que ninguém o faz conscientemente, mas o nosso “bias” de educação é tão forte que não o conseguimos ver. Quero partilhar contigo algumas coisas “normais” que se faz na parentalidade e educação, mas que são erros se estamos realmente preocupados com o que se está a passar e se tivermos a intenção de contribuir para um mundo diferente.

1. Tratar as crianças como se tivessem menos valor. Na vida diária de uma criança, na família e na escola ela está constantemente bombardeada com esta mensagem. Pessoas mais velhas, pessoas em posições “mais importantes” tem mais valor. As necessidades, as emoções, os desejos e as opiniões dos adultos valem mais, bem mais, que das crianças. Isso faz com que estejamos a construir a ideia de que quando se está numa posição de mais poder e mais força física tem-se mais direitos.

2. Muitas pessoas ainda recorrem à sua força física para controlar, dominar e corrigir as crianças. Existe uma crença cultural enraizada, e perigosa, que uma palmada ou duas ou três na hora certa, para a criança perceber que há limites e que a paciência esgota, é importante. E não foi assim há tanto tempo que podíamos trocar a palavra criança por mulher. Com este comportamento comunicamos, inconscientemente, que quando se é mais forte e quando se tem poder, é perfeitamente aceitável bater.

3. A ironia, o sarcasmo, as ameaças e a agressividade são utilizadas para corrigir, controlar e envergonhar as crianças. Tudo em nome da “boa educação”. “Quem achas que és?” “Cala-te!” “Estás a ver mais alguém a chorar?!” “Agora este acha quem tem palavra!” “Vais levar!” “És burro o quê?!” Formas de falar que criam feridas grandes na autoestima e mais tarde são reproduzidas.

4. Utilizar castigos. Quando as crianças não fazem o que os adultos mandam acreditamos que tem logo de haver uma consequência, não confiamos na lição da própria experiência e um diálogo a volta dela. Não olhamos para a origem dos comportamentos, só os queremos corrigir. Existe uma crença que as crianças têm de saber quem manda, e só quando a criança se porta “bem” é que merece amor e compaixão. Crenças que depois são reproduzidas nas outras relações.

5. Passar a mensagem que a criança é merecedora da forma como é tratada. Utilizamos linguagem como “Assim não gosto de ti!” “Dói-me mais a mim do que a ti!” “Só te bato porque gosto de ti!” Ou “Pois bati-te porque choraste quando não devias!” Como ouvi uma mãe desesperada a exclamar noutro dia. Passamos (inconscientemente) a mensagem que quem nos ama, magoa-nos. Associamos dor (física) e amor de uma forma perigosa. Muitas mulheres vítimas de violência doméstica vivem com esta crença, mas também a vemos já quando se observa a violência no namoro que é um problema crescente.

6. Relacionar-se com a criança como se fosse um pertence. Muitas pessoas relacionam-se com os seus filhos como se fossem um prolongamento do seu ego. Uma pessoa que lhes pertence e não uma pessoa com quem se partilha esta experiência da vida.

7. Misturar ameaças e castigos com promessas, subornos e recompensas. Hora ameaçamos e castigamos, hora subornamos e damos prémios. “Come a sopa para ficares forte. Se comeres a sopa podes comer um gelado!… Como já a sopa! Se não comeres não te dou o gelado!… Vá.. come! Olha já estou a perder a paciência, se não comeres a sopa vais levar!” Isto é uma comunicação que causa muita confusão, e é excelente para a manipulação.

8. Reforçar estereótipos. Muitas vezes sem querer reforçamos estereótipos que propagam os preconceitos e a desigualdade. A forma como organizamos a vida familiar. As meninas são princesas, os rapazes campeões. Compramos brinquedos que reforçam qualidades tipicamente relacionadas com mulheres ou homens. Deixamos a criança ver desenhos animados e compramos livros que comunicam mensagens limitadoras para mulheres e possibilitadoras para homens.

9. A influência de telenovelas, youtubers, redes sociais, músicas e vídeos de música. Deixamos a criança consumir música e média sem supervisão e/ou sem uma consciência adulta que avalia e ajuda a questionar. Sem adultos como guia a criança aprende sobre relacionamentos e comportamentos tóxicos que mais tarde serão reproduzidos. Mais velhos, podem também começar a consumir pornografia, sem nenhum sentido crítico.

10. A falta de amor incondicional. Claro que eu sei que praticamente todos os pais sentem amor incondicional pelos seus filhos. Mas sentir amor incondicional não é a mesma coisa que demonstra-lo. O amor muitas vezes é utilizado como uma moeda de troca, quando a criança faz o que o adulto quer, recebe, quando não faz, é lhe retirado.

Estou surpreendida em relação ao quão pouco se fala sobre a forma que somos educados e o que estamos a ver a acontecer na nossa sociedade. Claro que há muitas coisas que nos influenciam. Mas as nossas crenças base e os nossos comportamentos mais condicionados, foram “programados” na infância. Nos pais, nos educadores, temos um poder enorme nas nossas mãos.

Se costumas refletir sobre estes temas, certamente viste que os 10 exemplos em cima não estão ligados apenas à violência doméstica e ao assédio sexual. Ligam-se igualmente ao racismo e a outras situações de discriminação.

O convite hoje é examinares o que estás a fazer, e o que queres fazer. O convite é tornares-te (cada vez) mais atenta/o e cada vez mais interventiva/o quando te confrontares com machismo, sexismo, homofobismo, fascismo, racismo e “childism” (discriminação contra crianças). Eu sei que muitas vezes falta-nos a coragem. Ainda há momentos em que sinto a voz a tremer, o coração a bater e a palma das mãos a ficarem húmidas. Ainda me debato com o receio de ser considerada chata, exagerada, ingénua ou outra coisa qualquer. Mas quando isso acontece, lembro me de todas as mulheres antes de mim, e todos os homens também, que apesar do medo que certamente sentiram, escolheram dar uma passo a frente e humildemente falar e agir, para eu, e tu, hoje, vivermos uma vida melhor.

A poeta sikh Jasmin Kaur, escreveu um poema sobre a experiência de ser silenciada como mulher sikh de cor, com a qual quero finalizar:

Scream

So that one day a hundred years from now

Another sister will not have to dry her tears

Wondering where in history she lost her voice.

No próximo episódio do Podcast Inspiração para uma Vida Mágica é disto que te vamos falar. Porque podemos, porque queremos, porque não calamos, porque é preciso

Mia

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