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Andei muito farta de alguns comportamentos do meu marido e encontrei este artigo com uma sugestão e uma técnica muito interessante para conseguir extinguir os comportamentos indesejados nos maridos. Gostava de partilhar uma parte do artigo contigo.

“Extinguir maus comportamentos nos maridos?

Extinguir comportamentos nos maridos é uma estratégia de controlo. No fundo, pretende-se eliminar comportamentos desadequados e que foram anteriormente reforçados de forma inadvertida, aumentando a probabilidade de continuarem a acontecer.
Esta estratégia pode ser usada em comportamentos como choramingar, gritar, atirar coisas para o chão, fazer queixinhas. Por norma, as mulheres não se apercebem que estimularam estes comportamentos quando lhes deram atenção nas primeiras vezes em que foram manifestados. 
(…) 

Por exemplo, um pedido de uma bolacha aos gritos pode ser ignorado, mas um pedido de uma bolacha num tom de voz adequado pode ser reforçado, não só por dar a bolacha como também ao fazer um elogio.

É muito importante que os comportamentos a extinguir sejam facilmente observáveis, se compreenda o seu início e fim, e ocorram com alguma frequência.

Ignorar pode ser a parte mais difícil desta estratégia. Como o fazer?

Desvie o olhar;
Recorra ao silêncio naquele momento, não interagindo ou falando com o marido;
Saia do contexto onde a situação está a ocorrer.
Ou seja, não dê qualquer atenção ao marido no momento em que ele está a manifestar o comportamento desajustado. É possível que, de forma transitória, o comportamento desadequado aumente de “intensidade”. Mantenha-se firme e, paralelamente, recorra ao elogio logo que o comportamento esperado ocorra.

(…) 

Preparado para extinguir os maus comportamentos?”

Pois, imagino que já percebeste que estou a brincar… Mas o texto é recente e tirado de uma página que fala de educação de crianças. Só que troquei criança por marido, e cuidador por mulher. Podes também trocar criança por idoso ou imaginar a mesma situação como uma recomendação para chefes extinguirem o comportamento desadequado dos colaboradores…. e depois especular quais seriam as reações.

Acredito que, a pessoa que escreveu este artigo tem uma boa intenção e tenho a certeza que quer realmente ajudar. A minha intenção com este artigo é oferecer uma visão alternativa, uma visão que acredito ser um pouco mais completa e mais profunda. Uma visão mais respeitadora. Cada um depois vai poder fazer as suas reflexões e escolher a sua forma de agir.

O comportamento
Ao meu ver, quando educamos, é essencial pensar ao longo prazo, é essencial refletir quais as consequências e reais aprendizagens da criança. É importante saber quais os nossos valores e quais as nossas intenções. Acredito também ser útil perguntar, nesta caso específico, porque é que é importante “extinguir o comportamento da criança”?

Para mim, esta visão da criança e o seu comportamento não é só extremamente limitadora, como perigosa. Isto porque se está a ignorar por completo a razão e a intenção de trás do comportamento. Está-se a agir como se o tal choramingar, o gritar, as queixinhas, fossem apenas comportamentos indesejados, desadequados e como são comportamentos que chateiam podem ser simplesmente eliminados. Sem assumir nenhum tipo de responsabilidade pelo comportamento da criança, sem ter em mente que as crianças são espelhos dos adultos (será que há mais alguém na família que grita quando quer alguma coisa?). Não se está com nenhuma curiosidade em relação à vida interior da criança, não se quer saber das verdadeiras emoções que a fazem agir da forma que ela está a agir. Está-se a comunicar que algumas emoções que existem não são desejadas, e que não há espaço para essas emoções, e a criança não pode mostrar o que está realmente a sentir.

Também não se está a mostrar os próprios limites do adulto de uma forma construtiva. A criança não sabe com que se relacionar. Além disso uma criança pequena não se consegue separar do seu próprio comportamento, ou seja ela não vai perceber que é o comportamento que é inadequado, vai perceber que é ela que é inadequada, que ela não tem valor quando sente o que sente, vai perceber que ela assim não merece amor, vai perceber que só com determinado tipo de comportamentos merece o amor das pessoas.
(consegues pensar em consequências disto no futuro se for repetido muitas vezes?)

(Ignorar um comportamento é uma forma de castigar a criança pelo seu comportamento. Se sentes que necessitas de umas ideias para alternativas, espreita aqui.)

A frequência
Uma frase no texto diz:
“É muito importante que os comportamentos a extinguir sejam facilmente observáveis, se compreenda o seu início e fim, e ocorram com alguma frequência.”

Quando eu como mãe observo um comportamento que ocorre com alguma frequência, e se eu ainda por cima consigo ”compreender o início e o fim”, antes de qualquer tentativa de ”extinguir o comportamento” vou fazer uma reflexão e investigação sobre o que é que realmente se está a passar. Quando quero criar uma boa relação, quando o meu foco está na colaboração e não na obediência, nunca tenho o objetivo de extinguir um comportamento; em primeiro lugar quero percebê-lo.

Quando uma criança pede uma coisa ela está na realidade a pedir duas coisas: a coisa em si e conexão. Ela não precisa da coisa em si, mas a conexão é essencial! Então também podemos argumentar que quanto mais frequente o comportamento de pedir coisas desta forma, pior a conexão e se se adoptar estratégias de ignorar, parece-me que se está a agir com… ignorância.

A comunicação
Como é que tu te sentes quando alguém te ignora? É mesmo isso que queres fazer o teu filho sentir? 

Imagina  que tens uma emoção forte que gostavas de comunicar ao teu parceiro, mas não estás a conseguir fazê-lo de uma forma muito direta. Em vez disso, começas a chateá-lo por outras coisas, que parecem banais (já aconteceu, verdade?). E imagina então que a reação do teu marido é desviar o olhar e recorrer ao silêncio.

E depois quando fazes algo que ele gosta, ele bate palmas e diz que te portaste muito bem…

Como é que seria a vossa relação? Em que valores se baseia uma relação dessas? Quais são as verdadeiras intenções?

Às vezes pode ser desafiante entender o comportamento, principalmente quando não se tem o habito de procurar entendê-lo. Se o meu filho pedisse bolachas sempre aos gritos, e eu não conseguia perceber bem porquê, teria o cuidado de manter um bom contacto cada vez que a situação ocorresse, focava-me em ter uma boa conexão com ele. Vai aqui um exemplo sem grande teoria e pedagogia por trás de como poderia ser.

Chegava a ao lado dele, olhava-o nos olhos..:

(Com uma criança mais ou menos a partir dos 4 anos)
”Filho, reparei que ultimamente pedes sempre bolachas aos gritos. Pareces-me tão chateado…”
”Não, só quero bolachas, dá me as bolachas!”
”As vezes quando me sinto stressada acho que também digo coisas assim aos gritos…”
”Bolachas!!” 
”Hmmm, sabes, fico triste quando me pedes assim, sinto-me como se fosse pouco importante para ti e sentia-me muito melhor se me pedisses de uma forma simpática. Assim fico mesmo sem vontade de colaborar contigo.” 
”Uma bolacha, por favor.”
”Ok, aqui está. Depois gostava de falar mais um pouco contigo sobre isso, quando for possível. Posso-te dar um abraço?”

(Com uma criança mais pequena)
”Filho, estou a ouvir que queres uma bolacha e não gosto nada quando pedes a gritar. Anda aqui, queres um abraço? Que outras formas achas que há para pedir?” 

Há muitas formas, o mais importante, para mim, é que a forma seja autêntica e que se utilize uma linguagem pessoal aberta.

O texto em cima diz, ”É possível que, de forma transitória, o comportamento desadequado aumente de “intensidade”.” A questão aqui é que, a criança sabe perfeitamente como se pede a bolacha de uma forma educada. E se a situação ocorrer frequentemente, e ainda por cima se intensifica após o ”tratamento”, então pode-se ter a certeza que não tem a ver só com a bolacha em si. Ou seja, é mesmo necessário fazer uma reflexão mais profunda.

Em relação ao conselho ”recorra ao elogio logo que o comportamento esperado ocorra”, diria antes, ”em vez do elogio, reconhece a criança e diz o que sentes!” Pode-se basicamente esquecer o elogio! (Podes ler mais sobre elogios e reconhecimento por exemplo aqui e aqui)

”Ah, que bom ouvir quando pedes as bolachas de uma forma tão simpática! Sinto que estás a apreciar a minha ajuda!”

O amor
Todos nós queremos ser amados e reconhecidos. Queremos sentir conexão e ligação. Se a única forma de conseguirmos sentir amor e conexão é através do ”bom” comportamento, então mais cedo ou mais tarde a estratégia proposta no artigo vai funcionar. E é aliciante utilizar estratégias que ”funcionam”. A questão que fica é apenas: à custa de que? 

Quando se segue este tipo de estratégias está-se a agir a partir de um sítio sem amor, e quando adicionamos os elogios, de um sítio de amor condicional (mesmo que amemos os nosso filhos incondicionalmente, também o nosso comportamento é o que fala mais alto, não basta sentir o amor incondicional). É importante lembrar que este tipo de teorias comportamentais foram desenvolvidas a partir de experiências com cães pelo Pavlov no início do século 20. Se trocarmos criança por cão no artigo se calhar fazia mais sentido?

Estás-te a portar mal. Ignoro-te.
Portas-te bem. Premeio-te. 

É assim que te queres relacionar com o teu filho? Será que seria preferível ter uma relação mais profunda e respeitadora do que isso?

Há momentos em que o comportamento do teu filho te está a deixar maluco/a, não há?
Se imaginares que o que ele está a fazer nesses momentos é tentar assumir responsabilidade por algo que está acontecer dentro dele – o que acontece em ti?
Se olhares para o comportamento como uma solução que o inconsciente da criança criou como solução para o verdadeiro problema – qual será a tua abordagem?

Quando se escolhe ignorar um comportamento de uma forma tão profunda, não só se está a ignorar o desenvolvimento de uma saudável auto-estima, como também se está a ferir a auto-estima e a relação com a criança. Também não se estão a criar condições para o desenvolvimento da empatia e da inteligência emocional.

Se uma boa relação (autêntica, aberta, respeitadora etc.), auto-estima saudável e forte, empatia e inteligência emocional forem coisas importantes para ti, então acredito que este tipo de estratégias são mesmo para… ignorar.

Para acabar
Garanto que, se o teu filho atira brinquedos, se choraminga, se grita ao pedir bolachas, e se faz queixinhas, com frequência, ele tem as suas razões. E as respostas encontram-se na sua vida emocional e nos modelos que ele tem à sua volta. Se perceberes quais as necessidades dele é possível ajudar a preencher essas necessidades de outras formas. Se perceberes se o teu filho está a modelar alguém então podes mudar esse exemplo.

E consequentemente não vai ser necessário extinguir comportamentos nenhuns porque os comportamentos se vão extinguir por si só, já que deixam de servir o seu verdadeiro propósito.

Deixo-te com uma frase da Stacey Morgenstern:

“Todo o ato é o ato de amor, ou um pedido de amor.”

Imagem: FreeDigitalPhotos.net

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