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”E eu queixo-me sobre o caminho que tenho de fazer para o trabalho…” sussurrou a menina Californiana que fazia parte do tour que estava a fazer enquanto esperávamos no check point para entrar em Hebron na zona onde se acede a legendária Mesquita de Ibrahim, onde se encontram os túmulos da Abrão e Sara, Jacob e Raquel e Isaac e Rebeca, e onde hoje em dia metade funciona como sinagoga.

Hebron, um dos sítios mais conflituosos do mundo.

Decidi que a minha primeira visita a Israel, não seria completa sem uma visita à Palestina. Passei alguns dias maravilhosos em Tel Aviv e o sonho de flutuar no Mar Morto também foi preenchido. Senti que me poderia habituar a viver naquela cidade. Uma cidade alegre, segura, tranquila com pessoas muito simpáticas.

Mas agora encontro-me num check point vigiado por dois soldados, dois jovens, um rapaz e uma rapariga, que se tiverem 20 anos já parecia muito. São miúdos, com uma metralhadora pesada na mão. Todos em Israel são obrigados a cumprir o serviço militar, os rapazes durante 3 anos e as raparigas durante 2. Só posso imaginar os processos psicológicos e emocionais a acontecerem dentro destes jovens para encontrarem uma forma de lidar com as suas tarefas. As máscaras que estão a usar. A dureza, a autoridade. O ar de desprezo e nojo com que olham para os palestinianos, e para nós.

O oásis de Tel Aviv parece um sonho distante.

Estamos numa fila curta, mas parados. Um rapaz palestiniano, começa-nos a contar como às vezes está naquele sítio parado, 45 min ou mais, sem abrirem a cancela… Simplesmente porque os soldados estão ocupados com os seus telemóveis ou porque estão na conversa. E hoje, estão na conversa. Os senhores palestinianos à espera connosco começam a fazer algum barulho, a protestar, mas tudo de uma forma controlada pois a tensão e o medo é iminente. Os soldados encontram sempre uma razão para prender alguém ou para usar as armas, contam-nos.

Mas o medo não é só dos palestinianos, vejo o também nos olhos dos jovens soldados por baixo das suas armaduras enquanto inspecionam o meu passaporte.

Na teoria, Hebron é controlado maioritariamente pelos palestinianos e uma parte pelos Israelitas. Mas é óbvio como a força e o controlo dos israelitas tem mais presença, força e impacto.

Passamos finalmente o check point, após eu ter ficado retida por uns instantes na cancela pois os soldados tiveram outras coisas para tratar que não incluía abrir-me a cancela. (uns instantes que foram um excelente convite à prática de Mindfulness).

Do outro lado encontramos uma cidade quase deserta, poucos palestinianos nas ruas, lojas fechadas… Passam por nós grupos com muitas crianças pequenas vindas de uma visita à Mesquita de Ibrahim (ou no caso deles, à Sinagoga) e alguns colonos, todos a caminho do seu colonato vigiado por montes de soldados mais à frente. Com um acesso através de uma rua onde não é permitido os palestinianos passarem.

Um colono americano que passa por nós interrompe o Yamal, o nosso guia dizendo que ele está apenas a espalhar mentiras, os palestinianos têm muitos direitos e que as lojas estão fechadas porque não sabem gerir os seus negócios. A pistola que o senhor leva enfiada na parte de trás das calças está bem visível. O Yamal conta que os colonos não costumam ter medo de usar as suas armas. E que não é permitido um palestiniano ter armas. E que ele já esteve em grandes sarilhos por se por a discutir com colonos na rua e que se acontecer outra vez arrisca-se de ir preso, pois assinou um acordo a prometer que não o iria fazer mais para garantir que pudesse continuar com os seus tours.

Yamal está a fazer um esforço tremendo para não responder ao colono.

A falta de igual valor é óbvia. Aliás, ela não existe. Todos os palestinianos com quem falamos alegam que os jovens palestinianos sonham com um estado único onde todos estão tratados com igual valor. O Amron, o segundo guia, diz que para resolver este conflito têm de acontecer duas coisas. A ocupação israelita tem de acabar e a corrupção interna no governo palestiniano também. Ninguém dos senhores com quem falo vai votar nas eleições palestinianas, dizem que não vale a pena.

No ano passado li um dos livros que mais me impactou, “Madrugadas em Jenin” de Susan Abulhawa. Embora tivesse tido alguma ideia sobre o conflito Palestina/Israel, após ter lido o livro (e ainda mais agora), percebi quão pouco realmente sabia. Enquanto fazia o tour em Belém e Hebron lembrava-me muitas vezes do livro, e de algo que agora, com o que estava a observar, se tornou ainda mais óbvio. Entre check points, controlos de passaportes, campo de refugiados, opressão visível, estórias aterradoras, tensão e ‘aulas’ de política e história que raramente chegam para além das fronteiras dentro das quais são presas, entendi como nasce o terrorismo. A única emoção que senti foi a compaixão.

A Susan Abulhawa escreve no seu livro:

“Toughness found fertile soil in the hearts of Palestinians, and the grains of resistance embedded themselves in their skin. Endurance evolved as a hallmark of refugee society. But the price they paid was the subduing of tender vulnerability. They learned to celebrate martyrdom. Only martyrdom offered freedom. Only in death were they at last invulnerable to Israel. Martyrdom became the ultimate defiance of Israeli occupation.”

O terrorismo nasce da mesma forma como quando temos a experiência de ”pequenos terroristas” em nossas casas. Quando os nossos filhos se sentem tratados sem amor e sem valor, quando se sentem oprimidos e desrespeitados. Os que não escolhem suprimir as suas necessidades, escolhem lutar por elas. E quando a opressão é muita a força pode ser grande e violenta. E quando o risco de vida é constante mas a esperança da liberdade e do respeito está a morrer, então é cil justificar o injustificável.

Mais uma vez ponho-me a pensar como a transformação e a mudança no mundo reside na forma como educamos os nossos filhos. O que está a acontecer neste conflito, como praticamente em todos os outros, não será resolvido em negociações diplomáticas onde reina a ideia que uns são melhores que os outros, quem estava ”aqui primeiro” etc. Vai ser resolvido por pessoas que olham para a situação como olhos diferentes, que entram no conflito com valores diferentes. E por mim, com os valores da parentalidade consciente, aplicados dos dois lados, poderia-se chegar bem longe. Com igual valor, respeito pela integridade, autenticidade e responsabilidade pessoal acredito que tudo seria muito diferente. Com a capacidade de se colocar, mesmo, no lugar do outro, tudo seria bem diferente.

No episódio do Podcast Inspiração para uma Vida Mágica desta semana vou-te falar mais disto. Foi a promessa que fiz aos meus novos amigos.

Mia

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